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Para quem gosta de dar palmadas, de acariciar ou simplesmente apreciar com a vista...

Sunday, June 04, 2006

Olha...uma coisa séria!


Já disse antes que isto aqui não é sítio para pôr coisas sérias. Com efeito, se os depravados leitores cá vêem, é porque já estão fartos de coisas sérias e querem partilhar um pouco dos delírios neurológicos do Tone. Sim, o pessoal gosta é de comédia. Coisas sérias? Isso serve para quê?
Hehe, para variar, vou-me contradizer, até porque para se javardar, é necessário também reflectir. Faço-o com este texto singelo que descobri aí num site qualquer. Ora aí vai:

"O homem recusa o mundo tal como ele é, sem aceitar o eximir-se a esse mesmo mundo. Efectivamente os homens gostam do mundo e, na sua imensa maioria, não querem abandoná-lo. Longe de quererem esquecê-lo, sofrem, sempre, pelo contrário, por não poderem possuí-lo suficientemente, estranhos cidadãos do mundo que são, exilados na sua própria pátria. Excepto nos momentos fulgurantes da plenitude, toda a realidade é para eles imperfeita. Os seus actos escapam-lhes noutros actos; voltam a julgá-los assumindo feições inesperadas; fogem, como a água de Tântalo, para um estuário ainda desconhecido. Conhecer o estuário, dominar o curso do rio, possuir enfim a vida como destino, eis a sua verdadeira nostalgia, no ponto mais fechado da sua pátria. Mas essa visão que, ao menos no conhecimento, finalmente os reconciliaria consigo próprios, não pode surgir; se tal acontecer, será nesse momento fugitivo que é a morte; tudo nela termina. Para se ser uma vez no mundo, é preciso deixar de ser para sempre.
Neste ponto nasce essa desgraçada inveja que tantos homens sentem da vida dos outros. Apercebendo-se exteriormente dessas existências, emprestam-lhes uma coerência e uma unidade que elas não podem ter, na verdade, mas que ao observador parecem evidentes. Este não vê mais que a linha mais elevada dessas vidas, sem adquirir consciência do pormenor que as vai minando. Então fazemos arte sobre essas existências. Romanceamo-las de maneira elementar. Cada um, nesse sentido, procura fazer da sua vida uma obra de arte. Desejamos que o amor perdure e sabemos que tal não acontece; e ainda que, por milagre, ele pudesse durar uma vida inteira, seria ainda assim um amor imperfeito. Talvez que, nesta insaciável necessidade de subsistir, nós compreendêssemos melhor o sofrimento terrestre, se o soubéssemos eterno. Parece que, por vezes, as grandes almas se sentem menos apavoradas pelo sofrimento do que pelo facto de este não durar. À falta de uma felicidade incansável, um longo sofrimento ao menos constituiria um destino. Mas não; as nossas piores torturas terão um dia de acabar. Certa manhã, após tantos desesperos, uma irreprimível vontade de viver virá anunciar-nos que tudo acabou e que o sofrimento não possui mais sentido do que a felicidade."


Albert Camus, in 'O Homem Revoltado'

2 Comments:

  • At 5:41 PM, Anonymous Helder Sanches said…

    Épa, ó Tone, 'tás muita sério!...

    O que o amor é capaz de fazer às pessoas! Olha, ainda bem.

     
  • At 11:23 PM, Blogger Tone Biclas said…

    Olhó gajo! Mas que é que te deu para andares aqui a veres estas coisas sérias? Hm?
    Caríssimo Lélé, estás enganado! Esta posta de bacalhau tem a ver com tudo, menos o amor!!
    Mas o amor é bom, lá isso é!

    PS: aquela do Aleluia vai ter resposta...mas só no momento oportuno...hehehe...

     

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